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Geopolítica

O cenário do Brasil em uma América Latina que gira à direita

A maior democracia do continente deve enfrentar alguns desafios após a reeleição de Lula

América Latina mapa
Sete dos 12 países da América do Sul são comandados por governos de direita (Foto: Magnific)

Com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Brasil segue com um governo de centro-esquerda em uma região que, na última onda eleitoral, migrou em boa parte para governos de direita. 

O continente já vive uma sequência de vitórias eleitorais da direita e da centro-direita. Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru são governados por lideranças desse campo, enquanto a Bolívia encerrou em 2025 quase duas décadas de governos ligados ao Movimento ao Socialismo e passou a ser comandada pelo centrista Rodrigo Paz, que adotou uma agenda econômica mais orientada ao mercado.

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Sete dos 12 países da América do Sul são comandados por governos de direita, centro-direita ou centro com orientação econômica liberal. Além do Brasil, após a reeleição de Lula, restam fora desse eixo Uruguai, Guiana, Suriname e Venezuela, esta última sob o governo interino de Delcy Rodríguez e ainda em processo de transição política.

Para o professor Junior Ivan Bourscheid, do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política (Ilaesp) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), a alternância entre blocos mais à direita e mais à esquerda é um processo recorrente na América Latina. A novidade, segundo ele, é a continuidade de um mesmo grupo político no poder no Brasil.

Algumas exceções a esse padrão de alternância seriam o Paraguai, governado pelo Partido Colorado desde a redemocratização, o México, onde a esquerda venceu nos dois últimos pleitos, e El Salvador.

O peso dos Estados Unidos

Para Bourscheid, o principal desafio de Lula na relação com os vizinhos está fora da região.

“A grande problemática para Lula na sua relação com os vizinhos latino-americanos e os países latino-americanos em geral é a presença dos Estados Unidos cada vez mais forte na América Latina”, afirma.

O professor diz que Washington tem interesse em controlar de alguma forma a política no hemisfério ocidental, enquanto o presidente brasileiro adota outra postura.

“Lula tem uma perspectiva muito mais autonomista destas relações com Estados Unidos. Então isso pode gerar certas tensões econômicas, tensões políticas”, comenta.

Há ainda dois pontos de atenção: as próximas eleições nos países vizinhos, que mostrarão se a direita se mantém no poder ou se haverá nova alternância, e as eleições de meio de mandato nos EUA, na próxima semana.

“Se Trump perde a maioria, ele perde uma boa parte da sua capacidade de atuação política”, afirma, sobre as eleições de meio mandato, o que poderia reduzir também sua interferência na América Latina.

Uruguai, Paraguai e Argentina

No caso do Uruguai, o cenário é favorável. O país é governado por Yamandú Orsi, da Frente Ampla, alinhado ao campo da esquerda. O professor avalia que esse governo pode manter boas relações políticas com o Brasil.

O Paraguai, na visão do especialista, é um caso à parte. O Partido Colorado vence as eleições presidenciais desde 1989, mas o país mantém uma linha pragmática.

“O Paraguai busca ter uma política de boa vizinhança tanto com o Brasil como com a Argentina, seus dois vizinhos maiores”, diz Bourscheid.

Com Santiago Peña no poder até 2028, ele projeta relações estáveis. O ponto mais sensível é a renegociação do Tratado de Itaipu.

“Um elemento fundamental para as relações entre Brasil e Paraguai nesse quarto mandato de Lula é a questão da renegociação do tratado de Itaipu”, afirma, citando especialmente a revisão do Anexo C, que trata do uso da energia gerada pela binacional.

O professor lembra que o Paraguai já fechou um acordo com os EUA para que empresas americanas usem parte do excedente de energia.

“Temos que ver como o Brasil vai se posicionar diante disso, como a perspectiva mais soberanista, autonomista, pode não ver com bons olhos esta aproximação entre Paraguai e Estados Unidos”, diz.

Bourscheid cita ainda a Ponte da Integração, em Foz do Iguaçu, que já opera, mas com trânsito pequeno, por depender da conclusão de obras do lado paraguaio. Para ele, a infraestrutura pode reaproximar os dois países.

A Argentina é o caso mais complicado, visto o afastamento político dos países desde o início do mandato de Javier Milei, em 2023, justamente por choques muito grandes entre os dois presidentes.

O professor relaciona o desgaste ao episódio da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil rumo aos EUA, que teria contado com ajuda da Argentina e, “provavelmente”, com algum grau de facilitação de representantes do governo argentino. Bourscheid também diz que Milei foi muito crítico de Lula durante a campanha.

“Milei até agora não havia reconhecido a vitória de Lula nas urnas”, afirma.

O cenário pode mudar, observa, já que a Argentina terá eleições presidenciais no próximo ano.

Países andinos e amazônicos

Entre os governos de direita da região, Bourscheid destaca que líderes como Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e Keiko Fujimori, no Peru, parabenizaram Lula pela vitória.

“Por mais que sejam governos de direita, são governos que pelo menos buscaram manter relações diplomáticas e alguma forma de política de boa vizinhança nesse momento eleitoral”, diz.

O fator de tensão, segundo ele, é a relação desses países com os EUA, sobretudo no âmbito do chamado Escudo das Américas e da classificação de organizações ligadas ao narcotráfico como terroristas, abordagem criticada pelo governo brasileiro.

“Isso pode dificultar muito o estabelecimento de políticas comuns de segurança entre esses países, caso façam uma opção por aprofundar os laços com Estados Unidos”, afirma.

O professor inclui a Venezuela nessa conta. Mesmo com um governo de esquerda no papel, o país vive, segundo ele, uma situação de “grande ingerência e interferência de Estados Unidos”, com discursos recentes de Trump sugerindo que o país poderia se tornar mais um estado americano.

Chile e Equador

Bourscheid agrega o Equador à análise do Chile. Os dois países são governados por presidentes de direita, José Antonio Kast e Daniel Noboa, que parabenizaram Lula, mas são, segundo o professor, grandes críticos do petista.

No caso equatoriano, ele diz que a escala feita no país na saída de Flávio Bolsonaro do Brasil pode gerar atritos com a diplomacia brasileira. O professor ressalta que a distância geográfica ajuda a explicar a relação menos estreita.

“Tanto o Chile como o Equador são os dois únicos países sul-americanos que não compartilham a fronteira com o Brasil, então as suas relações historicamente não são tão profundas”, afirma.

Comércio tende a ser preservado

Mesmo com o risco de atritos políticos e diplomáticos, Bourscheid diz que as trocas comerciais costumam resistir às mudanças de orientação ideológica.

“Isso acabou não interferindo tanto, naqueles momentos, nas relações comerciais, que se mantiveram”, afirma, ao lembrar episódios anteriores de alternância entre direita e esquerda.

Ele atribui essa estabilidade aos interesses econômicos internos de cada país.

“Os interesses dos grupos econômicos internos de cada um dos países que buscaram manter as boas relações comerciais mesmo com governos que pudessem ser de uma perspectiva antagônica”, diz.

Para Bourscheid, outra dinâmica a ser observada é a disputa entre EUA e China.

“Essa [competição] entre esses dois superpoderes econômicos pode gerar um certo atrito”, afirma, dependendo da opção econômica e comercial de cada país da região.

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