Uma operação deflagrada pelas autoridades expôs uma organização criminosa acusada de cartelizar a venda ilegal de combustíveis e lavar dezenas de milhões de reais no Rio de Janeiro.
A estrutura da chamada "Máfia dos Combustíveis" integrava figuras influentes da política fluminense, das cúpulas das forças de segurança pública, servidores comissionados e operadores financeiros identificados por codinomes e alcunhas peculiares.
O deputado estadual eleito e prefeito de Belford Roxo, Márcio Correia de Oliveira (conhecido como "Márcio Canella") é apontado pela Polícia Federal (PF) como o patrono político, articulador e financiador do grupo criminoso.
Tido como o elo entre o poder público, a rede de combustíveis e grupos criminosos regionais, Canella teria movimentado milhões de reais e recebido repasses em espécie feitos por meio de contas de postos de combustíveis.
Ao lado de Canella na esfera pública, atuava Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro e ex-presidente do Detran-RJ, que exercia o papel de operador institucional da rede, oferecendo blindagem policial e proteção ao grupo.
Pablo Jukiá Felix Ferreira, apelidado de "Pablo Russo", é apontado como o principal operador de fato de uma vasta rede com mais de 20 postos de combustíveis.
Tendo os negócios registrados em nome de sua esposa, Luana Oliveira, e de Luisi Correa Pinho — que atuavam como "laranjas" para ocultar patrimônio, segundo a PF —, Pablo gerias os estabelecimentos via procurações, coordenando a lavagem de capitais, fraudes de mercado e o vazamento de informações de fiscalizações.
Luiz Ricardo Estevam Lima, conhecido como "Tchetcheco Trindade", atuava como coordenador do Balcão do Consumidor do Procon-RJ e servidor comissionado na Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor (Sedecon), sendo investigado por utilizar seu cargo para vazar antecipadamente relatórios e cronogramas de operações de fiscalização aos postos do grupo.
Nessa mesma frente atuavam Edvaldo Ferreira Borges, o "Biscoito", ex-servidor da Sedecon que servia como fonte interna de vazamentos, e Diogo Pacheco do Couto, advogado que intermediava o contato entre a organização e os agentes de órgãos fiscalizadores para repassar informações privilegiadas a Pablo Russo.
O escrivão da Polícia Federal Fábio Henrique Ferreira dos Santos, o "Fábio Federal", lotado na Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários (DELEFAZ), é investigado por repassar informações sigilosas a Pablo Russo por meio de mensagens de autodestruição para apagar os rastros dos vazamentos.
Gabriel da Silva Bastos, o "Calcinha", era um operador financeiro e logístico crucial na rotina da organização, encarregado de gerenciar sistemas internos de empresas do grupo (como a DAGG Tavares), monitorar pagamentos municipais e quitar despesas pessoais de Pablo Russo por meio de contas de terceiros para ocultar os beneficiários reais.
José Carlos Alves de Souza Júnior administrava os postos ao lado de Pablo Russo e mantinha a contabilidade paralela com os registros de repasses de propina a agentes públicos.
Os irmãos e policiais civis reintegrados Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes, secretário de Belford Roxo, sćao apontados como sócios ocultos de postos de gasolina e figuravam nas planilhas de propina sob o codinome "Meninos".
O delegado da Polícia Civil Glaucio Paz da Silva, ex-Corregedor-Geral e sucessor de Marcus Amim na presidência do Detran'RJ, aparece em anotações manuscritas apreendidas pela PF como beneficiário de propina para por postos de combuistível usados no esquema.
Dimitri Alecrim Gomes Gaudard Tavares atuava como testa de ferro ao assumir quotas sociais de empresas usadas no esquema de lavagem de dinheiro, segundo a PF, enquanto Márcio Samary Machado, o "Márcio Nit", intermediava o pagamento de boletos de alto valor para os chefes da organização usando contas de empresas com contratos com prefeituras.
Outro lado
Leia a íntegra da nota enviada pelo governo do Rio de Janeiro em 16 de outubro, às 13h08:
O PROCON-RJ esclarece que os senhores Edvaldo Ferreira Borges, conhecido como “Biscoito”, e Luiz Ricardo Estevam Lima, conhecido como “Tchetcheco”, não possuem vínculo funcional com a autarquia, não sendo servidores efetivos nem ocupantes de cargos comissionados no órgão que faz parte da estrutura do governo do estado.
No entanto, a menção a Edvaldo Ferreira Borges no despacho do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que aponta sua ligação ao sistema de defesa do consumidor e que, segundo as investigações forneceria informações sigilosas ao grupo investigado, refere-se à sua atuação na Secretaria Especial de Defesa do Consumidor, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro conforme farta documentação publicada no Diário Oficial do Município que comprova sua efetiva atuação na estrutura municipal de defesa do consumidor. Fica, portanto, demonstrado de maneira inequívoca que o citado não tem vínculo com o Procon Estadual e sim com os órgãos da estrutura municipal.
O PROCON-RJ e a Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor (SEDCON) desconhecem a existência de vazamento de informações relativas às operações de fiscalização realizadas pela autarquia. Essas ações possuem caráter sigiloso, e as informações são restritas às equipes diretamente envolvidas, que tomam conhecimento dos alvos somente no momento do briefing operacional.
Cabe ressaltar que as fiscalizações em postos de combustíveis são, em regra, realizadas de forma integrada com outros órgãos de fiscalização e controle como Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), apoio da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e o Instituto de Pesos e Medidas do Estado do Rio de Janeiro - IPEM, seguindo a mesma dinâmica de sigilo operacional.Além disso, nas datas mencionadas pela imprensa, não houve fiscalização de postos de combustíveis no município de São Gonçalo.
A SEDCON e o PROCON-RJ não compactuam com desvios de conduta e adotam as medidas administrativas e disciplinares cabíveis diante de indícios de irregularidades. Em razão da gravidade dos fatos noticiados pela imprensa, instauraram sindicância, por meio de suas respectivas corregedorias, com o objetivo de apurar rigorosamente os acontecimentos e eventuais irregularidades. A medida visa assegurar a transparência, a responsabilidade institucional e o esclarecimento integral dos fatos.
O PROCON-RJ e a SEDCON reafirmam seu compromisso com a legalidade, a transparência e a proteção dos consumidores fluminenses e destacam que os fatos serão apurados com o rigor necessário, conforme os procedimentos administrativos cabíveis.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.
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