O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trocou o comando do Federal Reserve (Fed) depois de anos de confrontos públicos com Jerome Powell e escolheu Kevin Warsh em meio à expectativa de uma política monetária mais favorável à redução dos juros.
Quatro meses depois da posse, porém, o novo presidente do banco central americano enfrenta uma decisão que caminha na direção contrária ao desejo da Casa Branca, elevar as taxas.
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) iniciou nesta terça-feira (15) sua reunião de dois dias.
O mercado espera que, na quarta-feira (16), o Fed aumente os juros em 0,25 ponto percentual, da faixa atual de 3,50% a 3,75% para 3,75% a 4% ao ano.
Seria a primeira alta desde julho de 2023 e a primeira sob o comando de Warsh.
A possibilidade recoloca em evidência uma disputa que O Brasilianista acompanha desde a gestão Powell.
Trump passou anos cobrando cortes mais rápidos, ameaçou mudanças na direção do Fed e criticou publicamente decisões da instituição.
Warsh chegou ao posto como uma escolha do próprio presidente e era visto como mais aberto a juros menores. A inflação, entretanto, mudou a equação.
No domingo (13), Trump voltou a dizer que os Estados Unidos deveriam pagar “a menor taxa de juros do mundo”, independentemente dos dados econômicos utilizados pelo Fed.
Dias antes, havia escrito nas redes sociais: “Reduza a taxa ou vou parar de negociar com países com os quais temos déficit”.
Alta esperada
A mudança nas apostas ocorreu rapidamente. Uma pesquisa da Reuters publicada em 9 de setembro ainda mostrava maioria dos economistas esperando manutenção dos juros durante o restante do ano.
Cinco dias depois, um novo levantamento apontou que 85% dos economistas consultados esperavam alta de 0,25 ponto nesta semana.
Nos mercados futuros, a probabilidade estava próxima de 90%. Além da decisão desta semana, parte dos analistas passou a projetar pelo menos outra elevação até março de 2027. A principal razão é a inflação.
O índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos avançou 3,4% nos 12 meses encerrados em agosto, ainda distante da meta de 2% perseguida pelo Fed.
O núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, aumentou 0,3% no mês. Ao mesmo tempo, a guerra no Oriente Médio voltou a pressionar o petróleo acima de US$ 100 (R$ 514,09) por barril.
Os juros dos títulos do Tesouro americano de dez anos ultrapassaram 5%, maior patamar em quase duas décadas.
O movimento aumenta o custo de financiamento do governo, das empresas e das famílias e demonstra que os investidores também passaram a exigir remuneração maior diante da inflação.
Trump pressiona
Trump não esconde qual decisão gostaria de receber nesta quarta-feira.
“Deveríamos estar pagando a menor taxa de juros do mundo”, afirmou o presidente no domingo, durante viagem à Irlanda.
Segundo ele, a qualidade do crédito americano justificaria custos de financiamento inferiores aos de outros países.
A avaliação entra diretamente em choque com a leitura predominante entre dirigentes do Fed.
Para a autoridade monetária, reduzir juros enquanto a inflação permanece acima da meta pode estimular ainda mais consumo, investimentos e demanda por mão de obra, dificultando a convergência dos preços para 2%.
A própria Casa Branca reconhece a diferença. Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional, afirmou que Trump defenderá a independência de Warsh, mas admitiu que, diante de uma alta, o presidente “não ficará muito feliz”.
A proximidade das eleições legislativas de novembro aumenta o custo político. Os republicanos tentam preservar maiorias estreitas no Congresso, enquanto inflação e custo de vida aparecem entre as principais preocupações dos eleitores.
Uma elevação dos juros encarece hipotecas, financiamentos de veículos, cartões e crédito empresarial.
Powell resistiu
A tensão atual repete parte do roteiro vivido por Jerome Powell. Trump foi quem escolheu Powell para comandar o Fed em seu primeiro mandato.
Ele assumiu a presidência do banco central em 2018 e acabou reconduzido por Joe Biden em 2022.
A relação com Trump, contudo, deteriorou-se quando Powell se recusou a reduzir os juros no ritmo exigido pelo presidente.
O Brasilianista destacou que Trump defendia taxas menores para estimular a economia e reduzir o custo da dívida americana, enquanto Powell sustentava que as decisões precisavam seguir inflação, mercado de trabalho e demais indicadores econômicos.
Em meio às pressões, Powell resumiu o problema como uma questão institucional.
“Isso diz respeito a se o Fed poderá continuar a definir taxas de juros com base em evidências e condições econômicas”, afirmou Powell, ao discutir as pressões políticas sobre a instituição.
Trump chegou a chamar Powell de “incompetente” e criticou repetidamente o presidente do Fed em entrevistas e publicações nas redes sociais.
Pressão sobre Powell
A disputa não ficou restrita aos juros. Em janeiro de 2026, procuradores federais abriram uma investigação criminal relacionada ao depoimento de Powell ao Senado sobre a reforma da sede do Fed, projeto estimado em cerca de US$ 2,5 bilhões (R$ 128,5 bilhões).
Powell associou a apuração ao ambiente de pressão exercido pela Casa Branca sobre a política monetária.
“Essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo”, declarou na época.
O Brasilianista recuperou a trajetória de Powell e mostrou como sua passagem pela presidência do Fed havia sido marcada pela pandemia, pela maior inflação americana em décadas, pelo aumento agressivo dos juros e pelos sucessivos confrontos com Trump.
Powell deixou a presidência do banco central em maio, mas permaneceu como integrante do Conselho de Governadores, cujo mandato é separado do cargo de chair.
Warsh assume
A chegada de Kevin Warsh foi interpretada inicialmente como uma vitória de Trump.
O Senado aprovou sua indicação por 54 votos a 45. O Brasilianista mostrou, antes da posse, que Warsh tinha relação com aliados do presidente e uma visão sobre juros percebida como mais favorável à flexibilização da política monetária.
Seu sogro, Ronald Lauder, é empresário com histórico de proximidade com o entorno político de Trump.
Warsh também havia defendido anteriormente mudanças na estratégia do Fed e taxas menos restritivas em determinadas circunstâncias.
A expectativa da Casa Branca, entretanto, encontrou um obstáculo antes mesmo da primeira reunião: a inflação.
Em maio, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, já alertava ao O Brasilianista que Warsh dificilmente teria espaço para cumprir rapidamente as expectativas de cortes.
“A inflação americana voltou a acelerar recentemente, impulsionada principalmente pelo choque de energia e pela resiliência da atividade”, afirmou Lima. Segundo ele, esse quadro limitava movimentos imediatos de flexibilização.
Primeiro recado
Na primeira reunião conduzida por Warsh, em junho, o Fed manteve os juros entre 3,50% e 3,75%. O número não mudou, mas a comunicação mudou.
Nove dos 18 integrantes do Fed passaram a projetar pelo menos uma alta ainda em 2026, enquanto seis esperavam duas elevações.
O Brasilianista informou naquele momento que o novo presidente adotava um tom mais duro do que o esperado quando Trump anunciou sua indicação.
Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, já havia alertado dois dias antes da decisão:
“O risco real não é corte, é o tom”, disse Trevisan ao O Brasilianista, acrescentando que o mercado começava a atribuir probabilidade relevante a uma alta ainda em 2026.
Após a reunião, o economista voltou a destacar o sinal enviado pelo Fed.
“A reação inicial foi clássica de susto hawkish”, afirmou, ao comentar a projeção dos próprios dirigentes para juros mais altos.
Três meses depois, a alta que parecia uma possibilidade tornou-se a aposta predominante.
Inflação de Warsh
O próprio Warsh endureceu sua mensagem. Em discurso no simpósio de Jackson Hole, em 28 de agosto, o presidente do Fed afirmou que a meta de inflação de 2% é “firme e fixa” e que garantir estabilidade de preços é responsabilidade direta da instituição.
Na ocasião, a inflação medida pelo PCE, índice preferido pelo Fed, estava em 3,7% em 12 meses.
Warsh também destacou que o mercado de trabalho permanecia sólido, com desemprego em 4,1%, e que os investimentos empresariais cresciam rapidamente, especialmente por causa da infraestrutura ligada à inteligência artificial.
O diagnóstico reduz o argumento para cortes imediatos: se emprego e atividade continuam resistentes, o Fed possui mais espaço para combater os preços sem provocar, necessariamente, uma recessão.
“É trabalho do Fed garantir que as expectativas de inflação não se desancorem”, afirmou Warsh em Jackson Hole.
Lisa Cook
A tentativa de Trump de influenciar a composição do banco central também não terminou com a saída de Powell da presidência.
Em junho, a Suprema Corte impediu, por 5 votos a 4, a tentativa do presidente de afastar a diretora Lisa Cook.
Trump havia anunciado a demissão após acusações de irregularidades hipotecárias.
Cook rejeitou as alegações e sustentou que a iniciativa estava relacionada à sua resistência às pressões políticas sobre a instituição.
O Brasilianista analisou que a decisão representou um revés para a tentativa de Trump de formar um Fed mais alinhado às suas posições sobre juros.
Cook afirmou que a decisão judicial reafirmava a importância da independência do banco central para cumprir os objetivos definidos pelo Congresso de estabilidade de preços e pleno emprego.
Independência testada
Warsh chega, portanto, à reunião de setembro numa posição politicamente incomum.
Foi escolhido por Trump depois de o presidente passar meses tentando substituir uma liderança que considerava excessivamente resistente aos cortes.
Sua chegada reduziu temporariamente as hostilidades entre a Casa Branca e o Fed.
Agora, contudo, a própria evolução da economia empurra Warsh para uma decisão semelhante às que fizeram Powell ser atacado durante anos.
A Reuters resumiu o dilema, Trump escolheu Warsh com expectativa explícita de juros menores, enquanto inflação, petróleo e mercado de títulos apontam na direção de uma política mais restritiva.
A decisão também envolve a credibilidade pessoal do novo presidente. Em Jackson Hole, Warsh insistiu que o Fed precisa entregar a estabilidade de preços.
Manter as taxas depois de o mercado praticamente incorporar uma alta poderia levantar dúvidas sobre se o banco central mudou de avaliação econômica ou cedeu à pressão política.
Michael Feroli, economista do JPMorgan, afirmou que as repetidas advertências de Warsh sobre inflação podem colocar a credibilidade institucional em risco caso não sejam acompanhadas por ação.
Reflexo no Brasil
O confronto interessa diretamente ao Brasil. Juros americanos mais altos tornam os títulos do Tesouro dos Estados Unidos mais atraentes e podem deslocar recursos de mercados emergentes para ativos denominados em dólar.
O movimento tende a pressionar o câmbio, encarecer financiamento externo e influenciar as decisões do Banco Central brasileiro.
O Brasilianista já mostrou que a política monetária americana interfere em dólar, Bolsa, investimentos estrangeiros e até no espaço disponível para a redução da Selic.
A coincidência desta semana é ainda maior, Fed e Comitê de Política Monetária (Copom) brasileiro anunciam decisões na quarta-feira.
Enquanto o mercado espera que o Brasil reduza a Selic de 14% para 13,75%, nos Estados Unidos a aposta predominante é pelo movimento inverso.
Se os dois prognósticos forem confirmados, a diferença entre as taxas brasileiras e americanas diminuirá em 0,5 ponto percentual em uma única quarta-feira.
A consequência não é automática, mas reduz parte do prêmio relativo oferecido aos investidores que carregam ativos brasileiros.
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