Economia

Copom deve cortar Selic para 13,75%

Mercado espera quinta redução consecutiva dos juros nesta quarta-feira

Taxa Selic
Economistas já projetavam cortes pequenos diante da inflação, do risco fiscal e do cenário externo Foto: Jakub Żerdzicki/Unsplash

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central começa nesta terça-feira (15) a penúltima etapa do ciclo de redução da taxa básica de juros projetado pelo mercado para 2026.

A expectativa predominante é de um novo corte de 0,25 ponto percentual na quarta-feira (16), levando a Selic dos atuais 14% para 13,75% ao ano.

Se confirmado, será o quinto corte consecutivo desde março. O ciclo começou com a redução de 15% para 14,75%, seguida por novos recuos para 14,50%, 14,25% e 14%.

Apesar da sequência, o movimento acumulado é de apenas 1,25 ponto percentual e mantém o Brasil com juros reais elevados.

O cenário esperado para esta semana coincide com avaliações feitas por economistas ouvidos pelo O Brasilianista desde o início do ciclo.

As entrevistas apontavam que o Banco Central teria espaço para reduzir os juros, mas em passos pequenos, condicionado ao comportamento da inflação, das contas públicas, do câmbio e das pressões internacionais.

A aposta do mercado ficou ainda mais concentrada nos últimos dias. Dados das Opções de Copom da B3, referentes ao fechamento de 8 de setembro, indicavam cerca de 95% de probabilidade de corte de 0,25 ponto percentual, contra aproximadamente 3,5% de chance de manutenção da Selic em 14%.

Quinto corte

Na última reunião, em agosto, o Banco Central reduziu a Selic de 14,25% para 14% e evitou indicar antecipadamente o que faria em setembro.

O Copom afirmou que o tamanho total do ciclo dependeria de novas informações e manteve a avaliação de que o cenário exigia cautela.

Na ocasião, Denis Medina, professor de Economia da Universidade Anhembi Morumbi, disse ao O Brasilianista que a redução tinha alcance limitado.

“O Copom trouxe uma redução pequena, de 0,25%, que não gera um grande impacto imediato na economia”, afirmou Medina.

O economista também avaliou que a autoridade monetária não estava assumindo compromisso automático com novas quedas.

Essa leitura ajuda a explicar a atenção que será dada não apenas ao número anunciado nesta quarta-feira, mas também ao comunicado que acompanhará a decisão.

Mesmo uma redução para 13,75% mantém a política monetária em nível restritivo.

Em junho, quando a taxa ainda estava em 14,25%, Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, explicou ao O Brasilianista que o juro real continuava muito acima das estimativas de neutralidade.

“Mesmo após o corte, portanto, a política permanece fortemente contracionista”, avaliou Trevisan.

Inflação recua

A principal mudança desde a reunião de agosto veio dos índices de preços. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto, influenciado principalmente pelo desconto temporário do bônus de Itaipu na conta de energia, além de quedas em passagens aéreas, combustíveis e parte dos alimentos.

O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (14) reduziu de 5% para 4,9% a projeção de inflação para 2026.

É a primeira previsão abaixo de 5% desde maio. Ainda assim, a estimativa permanece acima do limite superior da meta de inflação, estabelecido em 4,5%.

O recuo ajuda a justificar mais um corte, mas não significa que o problema inflacionário esteja resolvido.

Em maio, quando o Copom ainda estava no começo do processo de redução, o economista Thiago Holanda já apontava ao O Brasilianista que a composição da inflação restringia decisões mais agressivas.

“A inflação ainda apresenta pressões, especialmente em itens como alimentos e energia, o que limita cortes mais profundos”, explicou Holanda.

Desde então, alimentos e energia apresentaram alívio em parte dos indicadores, mas serviços e expectativas futuras continuam sendo observados pelo Banco Central.

Para 2027, o Focus desta segunda elevou ligeiramente a projeção do IPCA de 4,29% para 4,30%.

Crédito caro

A quinta redução consecutiva também não significa que empréstimos, financiamentos e cartão de crédito passarão imediatamente a operar com juros baixos.

A Selic funciona como referência para as demais taxas da economia, mas o custo final cobrado das famílias inclui inadimplência, risco do tomador, impostos, despesas operacionais e margens das instituições financeiras.

Na entrevista concedida ao O Brasilianista após o corte para 14%, Denis Medina destacou que o nível da taxa continuava alto o suficiente para manter financiamentos caros e restringir decisões de consumo e investimento.

A desaceleração econômica já aparece nas projeções. O Focus desta segunda reduziu de 1,93% para 1,89% a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, o menor número projetado desde o fim de maio.

Essa perda de velocidade pesa na decisão do Copom. Juros elevados reduzem a demanda por crédito e ajudam a conter preços, mas também atingem empresas dependentes de capital de giro, compras financiadas, construção civil e investimentos produtivos.

Risco fiscal

As contas públicas continuam entre os principais obstáculos para uma redução mais rápida.

Em julho, o economista Felipe Fogaça já havia indicado ao O Brasilianista os fatores que determinariam a trajetória da Selic durante o segundo semestre.

“Os indicadores determinantes são quatro: as expectativas de inflação, a trajetória fiscal, num ano eleitoral, o câmbio e o ambiente externo”, afirmou Fogaça.

Naquela entrevista, ele avaliava que o mercado enxergava pouco espaço para cortes adicionais.

Na época, a Selic estava em 14,25%, e a possibilidade de chegar a 14% até dezembro era tratada como cenário provável.

Desde então, o Banco Central fez o corte de agosto e o mercado passou a trabalhar com 13,75% como taxa terminal de 2026.

O próprio BC tem reiterado que acompanha os efeitos da política fiscal sobre as expectativas de inflação e os preços dos ativos.

Na reunião de agosto, o Copom citou explicitamente os riscos fiscais ao justificar sua postura de cautela.

Dívida pública

O nível da Selic também interfere diretamente no custo de financiamento do governo.

Em entrevista publicada pelo O Brasilianista, a economista e professora da FGV Carla Beni relacionou a trajetória dos juros ao avanço da dívida pública.

Segundo ela, a dívida bruta atingiu 82,5% do PIB, ou R$ 10,9 trilhões, e o custo dos juros nominais teve papel decisivo no resultado.

Beni afirmou que cada ponto percentual adicional na Selic representa cerca de R$ 60,6 bilhões sobre a dívida bruta.

“A minha primeira sugestão é a redução da taxa Selic”, afirmou a economista ao discutir medidas para conter o custo da dívida.

Ao mesmo tempo, juros e situação fiscal se retroalimentam. Uma dívida considerada arriscada pode levar investidores a exigir remuneração maior para financiar o governo.

Esse movimento pressiona taxas de longo prazo e dificulta o trabalho do Banco Central para reduzir a Selic sem provocar piora nas expectativas.

Risco externo

O cenário internacional continua impondo outro limite à velocidade dos cortes. O preço do petróleo voltou a superar US$ 100 (R$ 514,09) diante das tensões no Oriente Médio.

Nesta segunda-feira, o Brent chegou à região de US$ 108 (R$ 554,48), movimento que também pressionou o dólar e ativos brasileiros.

O impacto importa porque petróleo caro pode aparecer nos preços de combustíveis, transporte, produção industrial e alimentos, mesmo quando o IPCA doméstico apresenta alívio no curto prazo.

Essa preocupação já aparecia nas entrevistas do O Brasilianista desde abril. Naquele momento, Simone Deos, conselheira do Corecon-SP, avaliava que o Banco Central caminhava com um “afrouxamento muito tímido” diante das incertezas inflacionárias.

O cenário externo ganhou outro componente nesta semana: o Federal Reserve também decide os juros dos Estados Unidos na quarta-feira.

A inflação americana acelerou em agosto, reforçando apostas de aperto monetário por parte do Fed.

Juros mais altos nos EUA podem atrair capital para ativos americanos, pressionar moedas de países emergentes e tornar a redução da Selic brasileira mais delicada.

Siga O Brasilianista!